Profissões

OBSTETRÍCIA
Carreira oferecida na Universidade de São Paulo é a única do país. Profissionais são formados especialmente para o atendimento à gestante.
Depois de 33 anos de extinção, o curso superior de obstetrícia foi reaberto em 2005 pela Universidade de São Paulo (USP). A carreira é direcionada especificamente para a formação de obstetrizes - ou parteiras, como são popularmente conhecidas. A primeira turma do curso recém-aberto - e único no país - se forma no final deste ano.
 
De acordo com a professora Lúcia Cristina Florentino Pereira da Silva, vice-coordenadora do curso de obstetrícia da USP e enfermeira obstetra, o curso é voltado especificamente para o atendimento à mulher gestante, para que ela receba o acompanhamento adequado durante toda a gravidez, parto, e até 40 dias após o parto.

"Um dos nossos objetivos é fazer com que as mães tenham uma gravidez saudável. Queremos incentivar o parto normal e temos capacidade para lidar com bebês prematuros e gestantes de alta complexidade", disse a professora, que afirmou que as obstetrizes não se incomodam de serem chamadas de "parteiras".
 
De acordo com ela, a obstetriz (ou parteira) tem toda condição de acompanhar o pré-natal da gestante, desde que tudo corra dentro da normalidade. "Se detectarmos algum problema na gestação, encaminhamos a paciente para o médico, já que a nossa função não é tratar doenças", explicou a professora.
 
Lúcia explicou que embora o curso de obstetrícia seja da área de saúde, ele é voltado para as disciplinas de humanas, para que os profissionais tenham um "olhar psicológico das mulheres gestantes, aprendendo a respeitá-la naquilo que ela precisa". O curso tem aulas de anatomia, fisiologia, fundamentos da obstetrícia, mas também enfoca a psicologia.

Diferença entre a obstetriz e a enfermeira obstetra

A professora Lúcia explicou que as duas profissionais têm competência e capacidade para atuar no parto normal - principal objetivo das obstetrizes. Mas, o estudante que cursa enfermagem passará por todas as áreas da saúde (clínica geral, pediatria, psiquiatria, neurologia, obstetrícia, entre outras). Após a sua formação generalista, o enfermeiro deverá fazer uma pós-graduação para se especializar em obstetrícia.

O curso de obstetrícia da USP é de bacharelado e tem carga horária de 600 horas de estágio obrigatório - realizado em hospitais parceiros, como o Hospital Universitário da USP, Hospital Santa Marcelina, Hospital de Ferraz de Vasconcelos e Hospital São Matheus.
 
A visão do médico

O médico obstetra Marcos Ymayo, coordenador do Departamento da Saúde da Mulher do Hospital Santa Marcelina, em São Paulo, é um defensor do parto normal e, portanto, defende a carreira da obstetriz. Ele que faz cerca de 3.600 partos por ano (sendo que as cesáreas ficam em cerca de 11% do total) disse que conhece o curso da USP e o considera bem formulado. "Não tem como questionar capacidade e competência das formandas. O curso é bem complexo", disse.
 
"A obstetriz está focada para a área da obstetrícia, enquanto o enfermeiro tem que passar pelas outras áreas da medicina. Quem quer ser obstetriz já toma essa decisão na hora do vestibular e acho isso positivo, pois muitas enfermeiras obstetras acabam mudando de função porque não gostam", avalia o médico.
 
Sobre a possível polêmica no mercado de trabalho envolvendo a enfermeira obstetra e a obstetriz, Ymayo tem uma posição clara. "As duas são profissionais competentes e a obstetriz veio para somar e não para tirar espaço."
 
Um pouco de história

Segundo Lúcia, a atuação de parteiras e o incentivo ao parto normal sempre foram muito comuns em países da Europa e Ásia, especialmente antes da 2ª Guerra Mundial. Mas, após essa fase, as tradições mudaram e as cesáreas ganharam espaço. "Depois deste período, praticamente o mundo todo se adaptou às influências americanas. E a maioria dos países deixou de seguir o modelo europeu para seguir o modelo americano", contou a professora.
 
De acordo com a professora, o curso foi reaberto pela USP porque os índices de mortalidades neonatal no Brasil ainda são muito grandes e o Ministério da Saúde está fazendo campanhas incentivando e reforçando a importância do parto normal - por causa do excesso do número de cesáreas no país.
 
Segundo o médico Ymayo, o índice de cesáreas em hospitais particulares está em cerca de 75%, enquanto nos hospitais públicos as cesáreas são cerca de 30%. "Temos que acabar com a cultura da cesárea", disse.


FONTE: globo.com