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Enem 100% humanas tem textos longos e dificuldade média, dizem professores
A primeira vez em que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) juntou todas as questões de humanidades em um único dia resultou em uma prova carregada de textos longos, mas mantendo o nível de dificuldade médio com a abordagem interpretativa dos enunciados. Segundo professores ouvidos pelo G1, o primeiro dia do Enem 2017 não trouxe surpresas, principalmente aos candidatos que já haviam começado a treinar com simulados adaptados à nova ordem das provas.

Veja quem foram os professores ouvidos para a reportagem:
• Curso e Colégio Objetivo: Antonio Mario Talles (coordenador-geral do ensino médio e do cursinho)
• Sistema COC de Ensino: Vinícius Carvalhaes (professor de geografia) e Fernando Ávila (professor de história)
• Curso e Colégio Oficina do Estudante: Celio Tasinafo (coordenador pedagógico)
• Sistema de Ensino pH: Cláudio Falcão (diretor pedagógico)
• Curso Poliedro: Vinicius de Carvalho Haidar (coordenador)
• Sistema Anglo: Paulo Moraes (diretor de Ensino)
• Colégio e Vestibular de A a Z: Naun Faul (diretor de Ensino) e os professores Jaqueline Lopes (espanhol), Bárbara Lima (sociologia), Alan Miranda (português), Alex Nicácio (geografia), Heitor Gomes (história), João Henrique Soares (artes) e Paulo Victor Andrade (filosofia)

No geral, os professores apontam a manutenção dos estilos das provas, além do mesmo nível de dificuldade encontrado em anos anteriores. Eles explicam, porém, que questões de filosofia, sociologia e geografia foram mais conteudistas e privilegiaram os candidatos que estavam preparados e dominavam os assuntos pedidos.
"Em geral, [foi] uma prova de caráter mediano, que segue a mesma tendência do Enem dos últimos anos", disse Falcão, do pH.
Para Paulo Moraes, do Anglo, "o nível da prova subiu" e "não exige o conhecimento pelo conhecimento nem a decoreba, mas sim um conhecimento contextualizado, aplicado a situações do cotidiano do candidato". Ele afirma que essa mudança resultou em uma "prova muito bem feita, com fluidez, pensada como um todo", e disse que isso tem a ver com a mudança de propósito do Enem, que deixou de servir para a obtenção do certificado de conclusão do ensino médio.
"Como mudou a banca, a grande interrogação era como as questões iam aparecer", explica Fernando Ávila, do COC. "Mas se manteve a abordagem interpretativa, em que o estudante consegue responder a questão por eliminação, relacionado a resposta com o texto."

Redação: o 'fiel da balança'
Para Naun Faul, do Colégio de A a Z, "o fiel da balança neste primeiro dia certamente foi redação, pois exigiu esforço de produção por parte dos alunos, não apenas de leitura. Além disso, há sempre toda a expectativa sobre o tema, o que gera ansiedade até o momento da prova".
O tema foi "Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil". Professoras da área afirmaram que o essencial para tirar nota alta é focar na inclusão.
Ávila explicou que o tema da redação também é um indício de como os temas de ciências humanas serão abordados. "Neste ano o tema da redação está dentro da ética, é educação inclusiva. E na prova não houve questões polêmicas, como questões de gênero e movimentos sociais", disse ele.
"A prova valorizou temas clássicos e muito caros ao Enem, principalmente o tema da cidadania plena e inclusiva", ressaltou Tasinafo. "Em outros anos, esse aspecto nem chamaria tanto nossa atenção. Contudo, diante da polêmica sobre a anulação ou não da redação a partir do respeito ou desrespeito dos direitos humanos, aquele aspecto ganhou destaque."

Juntar humanidades tornou Enem mais cansativo
Tasinafo, da Oficina do Estudante, afirmou que não há grandes diferenças entre o Enem 2016 e o Enem 2017, mas "a organização das questões de linguagens junto com as de humanas pode ter sido considerada mais cansativa pelos candidatos de exatas e natureza".
Para Vinicius Haidar, o Enem 2017 pareceu muito com a prova do ano passado.
"É uma prova calcada em textos, principalmente em português, e textos longos", disse Antonio Mario Talles, do Objetivo. "Fica uma prova longa e, na minha opinião, cansativa."
Talles explicou que, quando a mudança da ordem das provas foi anunciada pelo MEC, o colégio começou a aplicar simulados com a nova versão do Enem.

Ciências humanas
De acordo com Talles, os professores de ciências humanas do Objetivo consideraram a prova adequada ao estilo já tradicional do Enem.
Paulo Moraes, do Anglo, considerou esta a "melhor prova de humanas dos últimos anos". Ele destacou as questões de sociologia: "Estão difíceis e o aluno que não estudou dificilmente conseguiu chegar a resposta certa pois exigia conhecimento teórico das áreas de conhecimento. Interessante destacar que todas as áreas cobraram temas muito abrangentes e diversificados."
"As questões de ciências humanas nitidamente giraram em torno da cidadania e dos direitos humanos", explicou Célio Tasinafo. "Destaco, por exemplo, as questões específicas sobre o tema: uma sobre a Declaração dos Direitos Humanos da ONU e outra sobre as declarações dos Direitos do Homem e do Cidadão da revolução francesa."
A valorização cultural dos afrodescendentes, questões sobre os direitos indígenas e a participação política das mulheres também embasaram.

Filosofia e sociologia
A professora de sociologia Bárbara Lima afirmou que sociologia foi mais conteudista no Enem 2017.
Outro fato positivo, segundo ela, foi a forte presença de temas relacionados às mulheres.
Um dos destaques feitos pelo professor Fernando Ávila foi a grande variedade de temas que apareceram na prova, inclusive o alto número de filósofos. Entre os nomes da Antiguidade abordados no primeiro dia do Enem estavam gregos que já são "figurinha repetida" no exame, como Aristóteles e Sócrates. "Só faltou Platão para completar", brincou Ávila. Mas outros nomes de pensadores gregos menos comuns na prova também foram citados, como Sólon e Demócrito.
"A questão sobre Demócrito chamou atenção por ser inédita", ressaltou Paulo Victor Andrade, professor de filosofia. "Este autor é interessante pela influência sobre ciência moderna e o texto de auxílio na questão remetia a outro filósofo. Isso já ocorreu uma vez em outra edição. O aluno precisava prestar atenção às referências, pois são dicas para resolver as questões."
A questão envolvendo o filósofo Sólon (número 62 na prova amarela, 79 na prova azul, 89 na prova branca e 85 na prova rosa) foi motivo de destaque tanto entre os professores do Objetivo quanto do Sistema COC. Apesar de não haver base para anulação, os professores ressaltaram que duas alternativas se pareciam bastante, provocando uma certa dubiedade que poderia induzir os candidatos ao erro. São as alternativas B e E. Os professores dos dois cursos, porém, afirmam que a resposta correta é a alternativa E: "criação de normas coletivas diminuiu as desigualdades de tratamento".

História
Na parte de história, questões contemplaram de forma equilibrada os temas de história geral e história do Brasil, "tendo como eixo principal a discussão social, criando demandas para política". Segundo Talles, do Objetivo, a presença de nomes como Habermas, um filósofo alemão moderno, que inclusive ainda está vivo, foi uma surpresa positiva no Enem 2017, já que ele, apesar de aparecer nas aulas do ensino médio, é considerado um conteúdo bastante avançado.
Neste ano, dentro de ciências humanas, foram menos questões de história em comparação à geografia, explicou Heitor Gomes, do de A a Z. "As provas vêm aumentando o nível de dificuldade a cada ano", disse ele, mas isso não fez com que a prova ficasse mais difícil no geral. "Não foi mais difícil do que a do ano passado, foi do mesmo nível."
Ávila afirma ter sentido falta de mais textos jornalísticos, em detrimento das citações retiradas de publicações com viés mais acadêmico, além das citações de pensadores, como Emmanuel Kant e Jurgen Habermas. Mas ressalta que, na parte de história, uma tendência positiva é a consolidação da abordagem de história por meio da cultura.

Geografia
Para Tasinafo, "as questões de geografia foram as mais tradicionais da prova de hoje, com abordagem de temas clássicos como: climas, uso do solo e migrações internas".
Alex Nicácio afirma que a prova de geografia trouxe "veio bem diferente esse ano", com questões que requerem mais conteúdo e menos interpretação. "Mas seguiu linha de conteúdo forte, chamando atenção para a geofísica, que apareceu mais do que costumava aparecer em provas anteriores. Foi uma prova muito bem elaborada."
Segundo o professor Vinícius Carvalhaes, a prova de geografia não teve surpresas e estava "dentro do esperado". Ele destaca, porém, a questão 76 da prova amarela, que fala sobre nutrientes do solo. "Três alternativas, C, D e E, não estavam incorretas e o candidato poderia achar que elas serviriam, mas elas não condizem com o que pede o texto", explicou ele, afirmando que a alternativa correta é A: "elevação da acidez".

Linguagens
Cláudio Falcão, do pH, explica que a prova de linguages houve um equilibro entre questões com textos complexos, como poemas e as telas de artes plásticas, e textos que não exigiam tanto da capacidade de leitura do aluno.
De acordo com ele, os alunos que estudaram fazendo as coletâneas dos anos anteriores certamente conseguiram lidar bem com a linguagem da prova.
• Português
Alan Miranda afirma que o Enem "provocou uma revolução" dentro da sala de aula.
Ele lembra que, neste ano, as questões de literatura apareceram em menor quantidade, privilegiando o modernismo, mas contemplando não só a literatura brasileira. "Assim como ano passado, verificamos novamente uma questão com texto de José Saramago."
Os textos bem longos da prova de linguagens manteve "distribuição muito semelhante ao ano passado com relação ao ano passado", diz Haidar, do Poliedro. "Exigiu bastante interpretação de texto, teve algumas questões de artes, e um pouco de gramática também."

Língua estrangeira (inglês e espanhol)
As questões de língua estrangeira privilegiaram, como em anos anteriores, a interpretação de textos de tipos diversos.
Em inglês, as cinco questões usaram cinco textos diferentes, cada um privilegiando um gênero textual distinto, destacou Talles, do Objetivo. "Um de crítica de cinema, um texto publicitário, um jornalístico, um informativo e uma carta." Embora os textos da prova de inglês, assim como a de espanhol, estivessem todos na língua estrangeira, as alternativas estavam em português. Mesmo assim, ele afirma que as provas tiveram nível de médio a avançado.
Em espanhol, a professora Jaqueline Lopes, do de A a Z, eexplico que "a dificuldade da prova está diretamente ligada ao treinamento de cada aluno ao longo do ano para a prova", e o que o Enem cobra é que os candidatos sejam excelentes em leitura. "Desde 2010, observamos o nível sendo aumentado a cada ano. Se compararmos a prova do último ano, este ano a dificuldade aumentou. As expressões idiomáticas trouxeram bastantes desafios aos estudantes. Elas exigem uma capacidade de conhecimento mais aprofundada dos alunos. A prova também trouxe uma interessante diversidade de gêneros textuais."

Artes e cultura
Para o professor João Henrique Soares, do de A a Z, no quesito de artes, a prova deste ano teve um nível médio de dificuldade, e um "fato positivo foi a continuidade da presença de questões que abordam arte de rua, como grafite e rap". Ele ressaltou ainda o aumento no número de questões relacionadas ao modernismo, principalmente europeu.
Uma semana de descanso
Os professores afirmam que a nova ordem de aplicação do Enem, em dois domingos consecutivos, não serve para que os candidatos estudem conteúdos novos, mas que descansem e privilegiem apenas a revisão de conceitos já aprendidos.
"Essa semana de diferença vai ajudar os alunos a descansar quanto a fazerem uma revisão focando as matérias desse segundo dia, da parte de biológicas e exatas. Nesse sentido, a gente passa a recomendação para os alunos descansarem um pouco e aproveitar para fazer uma revisão, inclusive usando provas dos anos anteriores do Enem, para eles conseguirem identificar os assuntos mais recorrentes e se acostumarem com o estilo da prova", explicou Vinicius Haidar, do Poliedro.

Fonte: G1/Educação